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My Books News

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Viagens da minha terra - Almeida Garrett

A modéstia de Almeida Garrett:


 


Essas minhas interessantes viagens hão de ser uma obra prima, erudita. brilhante, de pensamentos novos, uma coisa digna do século. Preciso de do dizer ao leitor, para que ele esteja prevenido; não cuide que são quaisquer dessas rabiscaduras da moda que, com o título de Impressões de Viagem, ou outro que tal, fatigam as imprensas da Europa sem nenhum proveito da ciência e do adiantamento da espécie. Primeiro que tudo, a minha obra é um símbolo... é um mito, palavra grega, e de moda germânica, que se mete hoje em tudo e com que se explica tudo... quanto se não sabe explicar. É um mito porque — porque... Já agora rasgo o véu, e declaro abertamente ao benévolo leitor a profunda idéia que está oculta debaixo desta ligeira aparência de uma viagenzinha que parece feita a brincar, e no fim de contas é uma coisa séria, grave, pensada como um livro novo da feira de Leipzig, não das tais brochurinhas dos boulevards de Paris. 


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Apenas quatro capítulos de leitura e estou convencida que me falta uma enorme bagagem literária, histórica e filosófica para compreender esta obra. 


Cada parágrafo contém uma obscura (para mim) referência a um contexto histórico, a uma obra literária ou a um autor, ou até a correntes filosóficas. Claramente estou acima dos meus conhecimentos. Sinto que precisava de um conjunto de notas de rodapé (ou uma enciclopédia) para decifrar partes do que leio. 


Mas estamos perante imodéstia com pedantismo literário ou ironia?



Bem me lembra ainda os dois versos do poeta Demandes que são forte argumento de autoridade contra a minha teoria; cuidei que tinha mais infeliz memória. Hei-de pô-los aqui para que não falte esta grande obra das minhas viagens o mérito da erudição, e que lhe não chamem livrinho da moda: estou resolvido a fazer a minha reputação com este livro.


 



Mas, confesso que, apesar do referido, a leitura está a ser bastante fluida e com alguma de crítica social, que é sempre oportuno em tempo de eleições:



E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta para produzir um rico. - Que lho digam o parlamento inglês, onde, depois de tantas comissões de inquérito, já deve andar orçado o número de almas que é preciso vender ao Diabo, o número de corpos que se têm de entregar antes do tempo ao cemitério para fazer um tecelão rico e fidalgo como Sir Roberto Peel, um mineiro, um banqueiro, um granjeeiro - seja o que for; cada homem rico, abastado, custa centos de infelizes, de miseráveis. 


Logo, a nação mais feliz não é a mais rica.


 



O livro está a ser tão grande surpresa, que me questiono se na realidade o cheguei a ler. 


 


Leitura partilhada com A Mulher que Ama Livros


 

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