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My Books News

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DEVIA MORRER-SE DE OUTRA MANEIRA - JOSÉ GOMES FERREIRA

DEVIA MORRER-SE DE OUTRA MANEIRA

Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: "Fulano de tal comunica
a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje
às 9 horas. Traje de passeio".
E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos
escuros, olhos de lua de cerimônia, viríamos todos assistir
a despedida.
Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio.
"Adeus! Adeus!"
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes...
(primeiro, os olhos... em seguida, os lábios... depois os cabelos... )
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo... tão leve... tão sutil... tão pólen...
como aquela nuvem além (vêem?) — nesta tarde de outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis...

Lord of the butterflies - Andrea Gibson

Lord of the butterflies, de Andrea Gibson, foi um livro a que tive acesso pelo NetGalley (gratuito), em troca de uma opinião honesta. Honestamente, digo já que passarei a seguir a obra de Andrea Gibson e pretendo adquirir o The Madness Vase, outro dos seus livros de poesia.

A poesia e as performances de Andrea Gibson, conhecidas nos circuitos de poetry slam, têm um grande enfoque em questões de identidade de género e das dificuldades da comunidade LGBTQ. Mas não só.

Encontrei no Lord of the butterflies, expressões de amor, de indignação social (com enfoque para os homicídios em massa e Trump, naturalmente), de dificuldades relacionadas com problemas de doença mental e referências à forma como nos relacionamos no mundo moderno, nomeadamente nas redes sociais.

A cada página, lia este pequeno livro de poesia com mais emoção e prazer.

Felizmente não vivo com problemas de saúde mental ou sofro as barreiras que são o dia-a-dia da comunidade LGBTQ. Também tenho o privilégio de ter nascido num dos países mais seguros do mundo.

Mas por tudo isso é que  Lord of the butterflies é magnífico, porque nos transporta para as vidas de outras pessoas, de uma forma tão bela que chega a ser mágica.

E apesar disso, a Andrea Gibson, porque trata de humanidade, imprime à sua poesia um carácter universal.

Essa universalidade permite-me pegar num pequeno trecho do seu poema Boomerang Valentine, para o dedicar à Gorduchita que se sentiu triste depois de ter caído no erro de fazer comparações entre a sua vida (literária) e o que vê nas redes sociais:

Of all the violence I have known in my life

I have never known violence

 

Like the violence I have spoken to myself,

And I have seen almost everyone around me

 

Hold the same belt to their own back,

An ambush of every way we´ve decided we´re not enough,

 

Then looking for someone outside ourselves

To dean that treason up.

 

Já agora, não terão reparado, mas eu tive muito cuidado em não utilizar um pronome, no texto acima. Foi intencional.

 

Orlando

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(...) It´s true / what they say about the gays / being so fashionable - /our ghosts never go / out of style, / even life is like funeral practice: / half of us already dead / to our families before we dir, / half of us still on our knees / trying to crawl / into the family photo. (...)

Andrea Gibson - Lord of the butterflies

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