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My Books News

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Ecologia de Joana Bértholo

Há muito que tinha Ecologia de Joana Bértholo no meu radar. Uma leitura adiada demasiado tempo. Senti, com esta leitura, que a literatura portuguesa está bem e recomenda-se. 

 

Ecologia é o terceiro romance de Joana Bértholo, uma escritora portuguesa com 36 anos, que desde os 17 anda a ganhar prémios literários pelo que escreve.

 

Ecologia é um livro verdadeiramente inovador e diferente sobre as palavras e a linguagem, mas não só.

 

Que vidas seriam as nossas, se começássemos a viver numa sociedade em que se paga para falar, em que as línguas do mundo foram patenteadas e estão agora a ser comercializadas? E se, na sequência de uma "orquestra de atentados" a nível mundial, a população aceitasse a vigilância constante e omnipresente do que dizem?

 

Os Consumidores parecem compreender, como se fosse uma Lei da Física ou outro tipo de postulado governante, que os ricos precisam sempre de mais dinheiro, e que um sítio elementar onde ir buscá-lo é ao bolso dos menos ricos e dos mais pobres.

 

Em Ecologia encontramos um retrato do mundo contemporâneo, num jogo de palavras por vezes estonteante. Senti-me constantemente puxada para situações reais, notícias, contextos actuais. Foi um dos livros mais desafiantes e desconcertantes que li nos últimos anos.

 

O homem esbofeteia-a e agarra-a pelos cabelos, furioso. Berra ao seu ouvido. As pessoas em volta diminuem de tamanho, interessam-se subitamente pelo destino do chão, alguns do tecto. Ela baixa o rosto e alguém lhe faz chegar às mãos, em meneios apressados, uma linha e uma agulha. É outra mulher, alguém que sabe bem o quanto a guerra começou muito antes de as tropas do inimigo invadirem a cidade.

 

Assistimos à difusão de discursos simplistas e deturpados. Somos hoje a cultura do comentário e da opinião fácil. Polémicos, em lugar de pertinentes e construtivos. Estes comentários proliferam em tom de imprecação e de pregação, vilipendiam estatísticas e citações de teor científico, fomentam concepções apocalípticas, maniqueístas ou paranóicas do mundo. Isto só contribui para que não nos responsabilizemos pelo que nos cumpre. Estas mensagens penetram na esfera mediática e têm uma repercussão viral, espalham-se em questão de segundos, incitando ao ódio e à separação.

 

Mas é também um romance sobre pessoas, com algumas personagens inesquecíveis.

Candela é uma criança que tem uma curiosidade enorme sobre as palavras e como as usamos. De tal modo que preocupa a mãe, pela sua precocidade.

O seu pai, um actor falhado que vive às custas da mulher que trái. Esta que o aceita. Carolina, uma jornalista indignada com o estado das coisas, que tenta compreender o conformismo dos outros, o afastamento do marido, um repórter fotográfico de guerra.

 

Mas as personagens mais fascinantes são, sem dúvida, Darla Walsh, o cérebro por detrás do monopólio das palavras por empresas multinacionais. E Ana, a "mulher-eco" de Darla cuja profissão é anotar o que ela diz, repeti-lo, colocar-lhe perguntas, fazê-la completar frases, ou seja, uma espécie de espelho.

Porém, este "papagaio" acaba por ser decisivo na vida de Darla e, de forma indirecta, na vida de todos.

 

Em Ecologia encontrei algumas secções que saltei, por serem listas de palavras, mas não encontrei uma página que desiludisse, pela forma como utiliza a linguagem, pela forma como vê e descreve a actualidade e a humanidade.

 

Deixo-vos o meu trecho preferido do livro, que ilustra bem a forma como Joana Bértholo vê e trás para a luz as palavras e o seu valor.

 

Magoa-o a imprudência com que ela usa "divórcio". Várias vezes o termo acabar, menos vezes a palavra terminar, e duas vezes o termo separar. Foi ela quem primeiro falou em desistir.

A lógica transaccional, a compra-e-venda, a oferta-e-procura: o glossário economicista é tão central ao funcionamento dos afectos. Investimento ("os anos que investimos nesta relação"), ou retorno do investimento, "o futuro hipotecado", "ter crédito", "a mais-valia de estarmos juntos",  "a importância de poder depositar confiança no outro", "uma interacção mais produtiva", e há sempre muita gestão envolvida nisto tudo, é preciso gerir tudo, das emoções às compras do mês, um esforço bem empregue e que não nos conduz a um amor a prestações.

Foco - Daniel Goleman

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É melhor lerem este post sentadas/os. Preparadas/os? 

O psicólogo e jornalista Daniel Goleman fez-me começar a praticar medicação. E juro-vos que nunca achei que era coisa para mim. As poucas tentativas, deixaram-me francamente frustrada e convencida que seria um acto inútil.

 

Porém, depois de ler sobre como o nosso cérebro funciona e como a capacidade de atenção se reflecte em todos os aspectos da nossa vida, senti-me verdadeiramente motivada a desenvolver a minha capacidade de concentração. Porque como refere o autor, a atenção é como um músculo e se não a utilizamos, irá definhar. 

 

Sustentado em diversos estudos da mais recente neurociência e psicologia social, Daniel Goleman dá-nos a perspetiva de um cérebro formatado por milhões de anos de vida na selva, atirado para um mundo moderno em que tudo parece lutar pela nossa atenção.

 

Mais, são particularmente assustadoras as evidências de que os nossos circuitos cerebrais estão formatados para uma aprendizagem que depende de convívio social, quando constatamos que as nossas crianças e jovens estão cada vez mais privados dele.

 

FOCO vai da ciência cognitiva, à empatia, passando pela capacidade de liderança e até à importância que damos aos problemas mundiais como a pobreza e aquecimento global. Tudo isso é foco, aquilo a que escolhemos dar a nossa atenção, ou para onde ela é puxada por acção de terceiros ou anos de evolução natural.

 

E o que tudo isso tem a ver com a minha tentativa de meditação? Os diversos estudos apontam para a meditação ( exercícios na forma de treinar a mente a concentrar-se na respiração) como forma de exercitar o "músculo da atenção" e domar "a tagarelice das nossas próprias mentes" e a "divagação mental".

Isso são evidências com as quais eu me consigo relacionar e problemas que já identifiquei como tendo, pelo que estou disposta a tentar.

 

Em suma, recomendo vivamente.

3 romances históricos muito diferentes

Bendita biblioteca municipal

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Apesar de apregoar que tinha excelentes ideias para ler mais livros da estante, fui à biblioteca e voltei com 5 livros.

 

Era 1 de Fevereiro, mês do Dia dos Namorados e a desculpa é: vou ler romances e pronto, lá se foram os planos para ler da estante.

 

Passei o fim de semana a ler e pouco mais fiz: 3 livros em 3 dias.

 

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10 Segredos para Ser Seduzida por um Lorde, de Sarah MacLean

 

Eu recordo-me de ter lido Sarah MacLean e de ter gostado. Tem vários romances históricos e o título ou tem um duque, ou um lorde ou um marquês. Tinha igualmente ideia de personagens femininas fortes e de um bom sentido de humor. Não me enganei.

 

Nesta história, o lorde é Nicholas St. John, o mais cobiçado de Londres e ela é Lady Isabel Townsend, filha de um conde em desgraça que aposta a filha em mesas de jogo.

 

A premissa é muito boa. O folhetim Pearls & Pelisses publicou 10 Segredos para ser seduzida por um Lorde, e os capítulos vão começando pelas dicas e pela forma desastrosa (intencional ou não) como Lady Isabel consegue o seu oposto ou os atinge das formas menos convencionais.

 

A premissa é boa, mas infelizmente não acho que Sarah MacLean tenha sido particularmente bem sucedida. O final foi demasiado atabalhoado e não tinha de ser. Ainda assim, foram algumas horas de leitura agradáveis.

 

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A Independência de uma Mulher, de Colleen McCullough

 

Andava com imensa curiosidade de ler este livro, por se apresentar como uma sequela de Orgulho e Preconceito (Jane Austen). Neste, vamos desconbrir a história das irmãs Bennet, com especial enfoque na vida de Mary Bennet, 17 anos depois.

 

Mary Bennet, ficou a cuidar da mãe até à sua morte, descobrindo-se solteira aos 38 anos. Mas agora é uma mulher independente, culta e com planos que chocam com os da família, que a querem relegada à situação solteirona discreta. Darcy é um crápula e Charles Bingley ganha a sua fortuna com escravos.

Infelizmente, mais uma vez, um fim atabalhoado e incoerente, com o único propósito de nos oferecer um final feliz. Porém, não é de todo uma leitura da qual me arrependa.

 

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A Magnífica Sophy, de Georgette Heyer

 

Guardei o melhor para o final. Tenho 3 livros desta autora para ler no meu NetGalley. Vi este e chamou-me à atenção a maravilhosa capa e um pequeno texto:

"Uma mulher formidável."

Rainha Isabel II

 

Não resisti e ainda bem porque é um romance magnífico com personagens inesquecíveis e diálogos absolutamente fantásticos.

 

A Magnífica Sophy, de Georgette Heyer consegue o que os anteriores não conseguiram: personagens a serem desenvolvidas de forma coerente, uma história coesa e um clímax final que é tonto porque toda a história o é.

 

Sophy é uma personagem inesqueível, uma debutante em Londres que viajou pelo mundo com um pai diplomata. Chega à mansão da tia com um macaco, um cavalo apropriado para uma senhora e com um papagaio.

É corajosa, inteligente, arguta, incrivelmente espirituosa (os diálogos são magníficos e hilariantes) e deixa o seu primo Charles à beira da loucura com tudo o que faz, que nunca é a coisa que uma mulher faria.

Recomendo vivamente.