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My Books News

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Em Novembro...

Portugal: Os números, Maria João Valente Rosa e Paulo Chitas


Portuguesas com história, séculos XVI e XV (vol. 2), Anabela Natário


Portuguesas com história, séculos X e XIII (vol. 1), Anabela Natário


Saga, Sophia de Mello Breyner


História do Porto - vol.1, Joana Sequeira


A sexta extinção, Elizabeth Kolbert


A infanta rebelde, Raquel Ochoa


A de Açor, Helen Macdonald


A rapariga no comboio, Paula Hawkins


 


 


Assombro, é a palavra do mês do Novembro. Propus-me continuar a ler mulheres, tentar ler mais da estante, mais autoras portuguesas, mais não ficção. 


 


É estranho concluir que ao limitar as minhas leituras (na verdade, mais correcto seria dizer que estou a concentrar as leituras), acabo por alargar os meus horizontes como leitora. Descubro temas, individualidades, autoras e até formas de escritas que não me era habitual ler. Não só, estou a ler mais, como estou a ler melhor (para mim).


 


Portugal em números


O meu mini livro de bolso, Portugal: os números - foi uma surpresa. Basicamente, são dados estatísticos do Pordata, mas estruturados e analisados de uma forma muito interessante. Achei particularmente instrutivo, cruzar a leitura com as discussões sobre o orçamento de Estado. 


No fundo, uma realidade que qualquer cidadã activa deveria conhecer. Foi assim que senti este livro, como parte da minha instrução com cidadã.


 


História de Portugal


Foi na estante que encontrei duas colecções de livros que havia relegado ao esquecimento: Portuguesas com história e História do Porto. Redescobri a nossa história, descobri nomes que não chegam a ser mencionados nos nossos manuais escolares, apesar de instrumentais na génese da  nossa independência nacional, descobri que não sabia nada da história da minha cidade e que muitos dos conceitos que aprendi na escola, estão muito desactualizados ou exagerados. 


Coincidir a leitura, de livros de história de portuguesas nos séculos X a XIII, com um livro de história da minha cidade, para o mesmo período, foi tão instrutiva como surpreendente.


Na verdade, poderia jurar que ouvi os neurónios a trabalhar dentro do crâneo - também eles ficaram impressionados.


 


Comecei a criar uma lista de leitura, apenas com o propósito em mente de ler mais sobre a história de Portugal. Porquê? Porque é fascinante e tem "personagens" fascinantes. 


 


Por exemplo, ainda com a trindade em mente (mulheres, não ficção, nacional), chego ao A infanta rebelde de Raquel Ochoa. Continuo com grandes mulheres enquanto os EUA elegem Trump... parece-me adequado.


 


Não ficção por autoras estrangeiras


Passo para os livros de não ficção por autoras não nacionais. BINGO! Dois livros magníficos, que recomendo a todas/os:


A sexta extinção, Elizabeth Kolbert


A de Açor, Helen Macdonald 


 


Ficção


Mas também li ficção.


A Saga - Sophia de Mello Breyner, para acompanhar as leituras escolares da minha sobrinha. Um pequeno conto, lindíssimo, que recomendo. Um livro triste, sobre vidas incompletas, frustradas e que dificilmente será compreensível para quem viveu menos de 15 anos e tem toda uma vida de esperanças pela fente.


Li a badalada A rapariga no comboio de Paula Hawkins, que com tanto buzz, conseguiu suscitar a minha curiosidade. Depois de esperar a minha vez, nas reservas da biblioteca, passei a poder dizer que também li


 


Não há um único livro que sinta ter desperdiçado tempo de leitura. Cresci com todos, tive prazer em ler com todos - até o mini-livro que só tem estatísticas (sou uma geek - gosto de tabelas e gráficos, que querem que vos diga?).


 


Novembro foi um assombro.

A Infanta Rebelde, Raquel Ochoa

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Como já havia referido, já andava para ler a autora que venceu o Prémio Revelação Agustina Bessa-Luís (não foi com esta obra).


Quando li que esta Infanta Rebelde, Dona Maria Adelaide de Bragança, viveu duas guerras mundiais, participou activamente na resistência contra os nazis, foi duas vezes presa e por duas vezes condenada à morte... está explicado porque peguei no livro, certo?


Aparece dentro do género "memórias e testemunhos" (não ficção), mas pareceu-me que era muito romanceada. 


 


Dona Maria Adelaide de Bragança foi uma mulher absolutamente fascinante. O seu avó era D. Miguel, o absolutista, que aprendemos estar do lado errado da história.


Nestas memórias, naturalmente que não é essa a versão. Mas a história é sempre escrita pelos vencedores, e quando é escrita pelos vencidos, terá necessariamente uma diferente perspectiva, pelo que também é preciso algum espírito crítico. 


No exílio, esta precoce maria rapaz apesar de algum luxo (empregados, tutores), também viveu a fome que não poupou muitos na primeira guerra mundial. Como tinha 4 anos e era catita, recebia sempre de alguém algo, mas o mesmo não acontecia com o seu irmão, um pouco mais velho, que era a sua companhia de travessuras, mas a quem o orgulho e alguma sensatez já obrigava a recusar. A irmã recorda os seus ralhetes, instanto-a a recusar o que faria falta a outros. 


As brincadeiras destes miúdos, são hilariantes. Imaginem duas crianças a conseguir mudar o ponteiro do relógio da torre da igreja em 20 minutos e depois ver o padre perplexo pelo atraso das pessoas à missa.


 


Mas é no período em que trabalhou na resistência anti-nazi, que a menina se faz uma mulher de garra. Primeiro é condenada à morte pelos nazis e depois pelos russos que os vencem. Da primeira condenação, é salva por Salazar (além de outros membros da família) e da última pelo seu próprio engenho. 


 


Quando consegue chegar a Portugal, não só envereda por obras sociais como consegue indispor Salazar ao opor-se ao Antigo Regime. Aliás, as ligações entre a família real e o ditador terão sido algo complexas, entre a oposição de quem sabia o que era uma ditadura e a gratidão por quem lhe salvou a vida.


 


Uma pessoa sobre a qual gostaria imenso de ler mais é Maria Teresa de Löwenstein-Wertheim-Rosenberg, a mãe da infante, descrita como alguém de uma extraordinária generosidade para com os outros, especialmente durante os períodos da fome.


 


Em muitos momento senti que faltava alguma fluidez no texto, nomeadamente ligando diferentes momentos, quando tentava intercalar as memórias com a história da família real, porém foi uma leitura muito agradável. 


 


Dona Maria Adelaide de Bragança morreu em 2012 com 100 anos. Até ao livro de Rachel Ochoa, nunca tinha ouvido falar dela. É este o poder dos livros.