Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

My Books News

My Books News

Ecologia de Joana Bértholo

Há muito que tinha Ecologia de Joana Bértholo no meu radar. Uma leitura adiada demasiado tempo. Senti, com esta leitura, que a literatura portuguesa está bem e recomenda-se. 

 

Ecologia é o terceiro romance de Joana Bértholo, uma escritora portuguesa com 36 anos, que desde os 17 anda a ganhar prémios literários pelo que escreve.

 

Ecologia é um livro verdadeiramente inovador e diferente sobre as palavras e a linguagem, mas não só.

 

Que vidas seriam as nossas, se começássemos a viver numa sociedade em que se paga para falar, em que as línguas do mundo foram patenteadas e estão agora a ser comercializadas? E se, na sequência de uma "orquestra de atentados" a nível mundial, a população aceitasse a vigilância constante e omnipresente do que dizem?

 

Os Consumidores parecem compreender, como se fosse uma Lei da Física ou outro tipo de postulado governante, que os ricos precisam sempre de mais dinheiro, e que um sítio elementar onde ir buscá-lo é ao bolso dos menos ricos e dos mais pobres.

 

Em Ecologia encontramos um retrato do mundo contemporâneo, num jogo de palavras por vezes estonteante. Senti-me constantemente puxada para situações reais, notícias, contextos actuais. Foi um dos livros mais desafiantes e desconcertantes que li nos últimos anos.

 

O homem esbofeteia-a e agarra-a pelos cabelos, furioso. Berra ao seu ouvido. As pessoas em volta diminuem de tamanho, interessam-se subitamente pelo destino do chão, alguns do tecto. Ela baixa o rosto e alguém lhe faz chegar às mãos, em meneios apressados, uma linha e uma agulha. É outra mulher, alguém que sabe bem o quanto a guerra começou muito antes de as tropas do inimigo invadirem a cidade.

 

Assistimos à difusão de discursos simplistas e deturpados. Somos hoje a cultura do comentário e da opinião fácil. Polémicos, em lugar de pertinentes e construtivos. Estes comentários proliferam em tom de imprecação e de pregação, vilipendiam estatísticas e citações de teor científico, fomentam concepções apocalípticas, maniqueístas ou paranóicas do mundo. Isto só contribui para que não nos responsabilizemos pelo que nos cumpre. Estas mensagens penetram na esfera mediática e têm uma repercussão viral, espalham-se em questão de segundos, incitando ao ódio e à separação.

 

Mas é também um romance sobre pessoas, com algumas personagens inesquecíveis.

Candela é uma criança que tem uma curiosidade enorme sobre as palavras e como as usamos. De tal modo que preocupa a mãe, pela sua precocidade.

O seu pai, um actor falhado que vive às custas da mulher que trái. Esta que o aceita. Carolina, uma jornalista indignada com o estado das coisas, que tenta compreender o conformismo dos outros, o afastamento do marido, um repórter fotográfico de guerra.

 

Mas as personagens mais fascinantes são, sem dúvida, Darla Walsh, o cérebro por detrás do monopólio das palavras por empresas multinacionais. E Ana, a "mulher-eco" de Darla cuja profissão é anotar o que ela diz, repeti-lo, colocar-lhe perguntas, fazê-la completar frases, ou seja, uma espécie de espelho.

Porém, este "papagaio" acaba por ser decisivo na vida de Darla e, de forma indirecta, na vida de todos.

 

Em Ecologia encontrei algumas secções que saltei, por serem listas de palavras, mas não encontrei uma página que desiludisse, pela forma como utiliza a linguagem, pela forma como vê e descreve a actualidade e a humanidade.

 

Deixo-vos o meu trecho preferido do livro, que ilustra bem a forma como Joana Bértholo vê e trás para a luz as palavras e o seu valor.

 

Magoa-o a imprudência com que ela usa "divórcio". Várias vezes o termo acabar, menos vezes a palavra terminar, e duas vezes o termo separar. Foi ela quem primeiro falou em desistir.

A lógica transaccional, a compra-e-venda, a oferta-e-procura: o glossário economicista é tão central ao funcionamento dos afectos. Investimento ("os anos que investimos nesta relação"), ou retorno do investimento, "o futuro hipotecado", "ter crédito", "a mais-valia de estarmos juntos",  "a importância de poder depositar confiança no outro", "uma interacção mais produtiva", e há sempre muita gestão envolvida nisto tudo, é preciso gerir tudo, das emoções às compras do mês, um esforço bem empregue e que não nos conduz a um amor a prestações.