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My Books News

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Boutade

Numa entrevista recentemente publicada na Visão (cuja leitura recomendo, na minha modesta opinião), António Lobo Antunes lamentava-se pela polémica que surgiu a propósito de um comentário seu relativamente a Fernando Pessoa:


 



Já atingiu um patamar em que pode escrever como bem entender e até dizer o que lhe apetece, sem se preocupar com as consequências?
Está a pensar no Fernando Pessoa e de eu ter dito que ele não fodia?


Por exemplo.
Isto está cheio de patetas, as perguntas nunca são bem aquelas e as respostas também nunca são bem aquelas. Primeiro era uma boutade. Foi num almoço, estávamos a gozar, e de facto eu acho mesmo que ele teria sido melhor poeta se tivesse feito amor… Como se pode viver sem fazer amor ? Não entendo. Mas só um palerma é que me vai atacar por eu dizer isso. Mas não. Não houve medíocre que não viesse morder. Não gosto da Mensagem, é evidente, como acho que o Livro do Desassossego é um conjunto de banalidades e lugares-comuns. Não sei para que estamos a falar do Fernando Pessoa, coitado, não tem culpa nenhuma… Isto é para dar matéria aos idiotas, para me virem morder os calcanhares, não chegam mais alto…


 



Não fosse o comentário, julgo que não teria percebido a amplitude do poema seguinte. Não é deliciosamente juvenil? 


 


Dá a surpresa de ser


Dá a surpresa de ser
É alta, de um louro escuro.
Faz bem só pensar em ver
Seu corpo meio maduro.



Seus seios altos parecem
(Se ela estivesse deitada)
Dois montinhos que amanhecem
Sem ter que haver madrugada.



E a mão do seu braço branco
Assenta em palmo espalhado
Sobre a saliência do flanco
Do seu relevo tapado.



Apetece como um barco.
Tem qualquer coisa de gomo.
Meu Deus, quando é que eu embarco?
Ó fome, quando é que eu como?


 


Fernando Pessoa in Poemas da minha vida de Miguel Vieira