Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

My Books News

My Books News

A Odisseia de Penélope - Margaret Atwood

Quando procurava um livro para o desafio do Read Harder Challenge, "um livro que é uma reinvenção de um clássico (conto de fadas, peça de Shakespeare, etc.)", a Sara sugeriu-me A Odisseia de Penélope de Margaret Atwood.


 


Ainda não li a Odisseia de Homero (cuja história, naturalmente, todos conhecem pela rama), mas tinha lido Ulisses de Maria Alberta Menéres, para acompanhar a minha sobrinha nas suas leituras escolares. Sem isso, falhar-me-iam muitas referências, sem dúvida.


 



Optei por entregar a narrativa a Penélope e às doze escravas enforcadas. As escravas formam o Coro, que canta e declama, concentrando-se nas duas questões que se destacam numa leitura atenta da Odisseia: o motivo do enforcamento das escravas e o real propósito de Penélope. A maneira como a história é contada na Odisseia não convence, há muitas incoerências. Sempre vivi assombrada pelas escravas enforcadas.; em a Odisseia de Penélope, ocorre o mesmo com Penélope.


 



Antes de mais, é Odisseu em grego e Ulisses em latim. 


 


Penélope é prima de Helena de Tróia e esposa inteligente e fiel de Ulisses, por quem espera durante 20 anos, quando este parte para a Guerra de Tróia e enquanto este anda perdido entre deuses e aventuras, nos anos seguintes. É ela que, para evitar ter de casar com um dos pretendentes ao seu reino, cria um artifício, dizendo que escolherá um depois de terminar uma mortalha que tece durante o dia e desfaz durante a noite.


 


Logo na 1ª frase fico agarrada ao livro que se tornou rapidamente um dos meus preferidos:



Agora que morri, sei tudo. Era isso que eu esperava que acontecesse, mas, como muitos dos meus desejos, deixou de se realizar. Sei apenas alguns factos dispersos que antes ignorava. Desnecessário dizer, trata-se de um preço alto demais a pagar pela satisfação da curiosidade. 


Já que estou morta - já que atingi o estado desossado, deslabiado, despeitado -, aprendi coisas que preferia desconhecer, como ocorre quando alguém escuta debaixo da janela ou abre cartas alheias. Você gostaria mesmo de ler a mente? Pense bem.


Aqui todos chegam com um saco igual aos usados para guardar os ventos, mas todos os sacos estão cheios de palavras — palavras que a pessoa disse, palavras que ouviu, palavras que foram ditas a seu respeito. Alguns sacos são muito pequenos; outros, grandes; o meu tem tamanho razoável, mas boa parte das palavras se refere a meu distinto marido. Ele me fez de tola, alguns dizem. Era sua especialidade: fazer os outros de tolos. Ele se safava de todas, outra de suas especialidades: safar-se.


 



A escrita de Margaret Atwood é fluida e acutilante. É realmente um prazer. Com menos de 100 páginas, é um pequeno grande livro, sobre uma outra Odisseia, sobre mulheres e sobre feminismo. 



E o que me restou, quando a versão oficial se consolidou? Ser uma lenda edificante. Um chicote para fustigar outras mulheres.


 



Obrigada Sara, a minha vida literária seria mais pobre sem este livro.